10.9.08


Ao chegar em casa, o estranho homem se ajoelha na sala e tira as roupas. Ele observa sua coxa branca, onde está arrumado o cilício, arame com pontas de ferro que pressionam a carne. Insatisfeito com as manchas roxas e a dor que o instrumento deixa, ele aperta ainda mais o arame. Depois, com um chicote, golpeia violentamente as costas.

Este penitente é o personagem Silas, membro da Opus Dei (em latim, “Obra de Deus”), instituição hierárquica da Igreja Católica composta por leigos que tem como finalidade participar da missão evangelizadora da Igreja, retratada no livro O Código da Vinci, de Dan Brown. Apesar da descrição acima ser um pouco fictícia, a obra manchou a imagem da organização, que passou a ser vista como uma confraria de masoquistas. Porém, apesar do exagero do autor americano, o caso de Silas tem, sim, um pé na verdade.

Na verdade os membros da Opus Dei não usam um chicote, mas uma pequena corda com nós, conhecida como “disciplina”.

Para o sacerdote espanhol Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei em 1928, o corpo era um vespeiro, um vulcão de tentações. A penitência física ajudaria a matar o pecado na raiz e controlar os instintos. Hoje, mesmo os católicos mais praticantes acham essas idéias atrasadas, mas, no passado, a penitência foi muito praticada.

Penitência são atos como jejum, vigília, autoflagelação ou peregrinação que os fiéis oferecem a Deus como provas de que estão arrependidos dos seus pecados. É um sacrifício pessoal. A autoflagelação é a única prática condenada no seio da Igreja Católica.

A freira albanesa Teresa de Calcutá era uma das personalidades que costumava a chicotear as próprias costas. Ela via na mortificação uma maneira de compartilhar e compreender o sofrimento dos pobres. Durante o tempo em que foi papa, de 1963 a 1978, Paulo VI usou uma camisa com correntes pontiagudas sob as vestes episcopais.

São João Batista usava o cilício quando jejuava no deserto. Santa Rosa de Lima usava espinhos por debaixo da sua coroa de rosas. Thomas Morus usava debaixo da suas roupas de seda, com que comparecia à corte de Henrique VIII, uma outra de arame a título de cilício como forma de sacrifício voluntário. Carlos Magno chegou a ser enterrado com o cilício que usou durante a vida. Também a irmã Lúcia de Fátima praticou a mortificação corporal.

Até hoje o uso do cilício é comum em algumas ordens religiosa, como as Carmelitas Descalças, os Cartuxos e os Irmãos Franciscanos da Imaculada Conceição. Para os membros da Opus Dei – os chamados de numerários – o cilício é um hábito do cotidiano. Eles usam o arame no mínimo duas horas por dia na coxa. Uma vez por semana eles fazem o “dia da guarda”, quando se devem redobrar os esforços para atingir a santidade. Nesse dia, o numerário se tranca no quarto e usa a “disciplina” para golpear as costas e as nádegas, enquanto reza o pai-nosso ou a ave-maria.

A penitência religiosa pode ser considerada uma espécie de masoquismo, onde o prazer não está na dor, mas na aproximação de Deus que a dor provoca.

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