
O psicanalista americano Robert Stoller conceituou, em 1985, sadomasoquismo – ou S&M, termo que ele e outros estudiosos costumam usar – como tentativa de dominar um trauma precoce revivendo-o em situações controladas e seguras. Os sadomasoquistas participam involuntariamente de um mecanismo inconsciente, de forma ativa ou passiva, em alguma situação familiar. Esses praticantes não têm consciência de que tal comportamento seja uma maneira de reviver um trauma anterior. A repetição indica uma tentativa de solucionar o trauma inicial.
Dor, cortes e autoflagelação, inclusive atitudes suicidas, são tentativas de restituir a unicidade do ego diante de uma angústia avassaladora. Certas pessoas expõem o corpo a alto risco porque, agindo assim, sentem-se no comando. A dor que sentem os ajuda a superar seus medos niilistas de destruição.
Mas o sadomasoquismo seria então uma doença? A socióloga Gini Scott, em seu livro O Poder Erótico (1983), examinou a dinâmica da subcultura sadomasoquista heterossexual e afirmou: "Diferente de psiquiatras e psicólogos que lidam primariamente com indivíduos psicologicamente problemáticos que se interessam por D&S [Dominação e Submissão], não os achei problemáticos psicologicamente ou nocivos à sociedade; ao contrário, um espírito de bom humor prevaleceu e os participantes pareciam, na maioria das vezes, muito atraentes, pessoas bem comuns, que tinham relacionamentos comuns fora da prática de D&S. Uma grande variedade de pessoas, com uma diversa gama de interesses eróticos, participa do sadomasoquismo. Seus antecedentes, atividades e atitudes são bem diferentes do estereótipo social que retrata o sadomasoquismo como uma forma de violência, mau comportamento ou descontrole cometido pelas pessoas psicologicamente instáveis, que procuram machucar os outros ou serem machucadas. No cerne da comunidade estão pessoas sensatas, racionais, respeitáveis, pessoas bem comuns. Desta forma, diferente de sua imagem pública, a comunidade é calorosa, próxima e sólida”.
Longe de parecerem doentes, os praticantes de sadomasoquismo mostram confiança e determinação, sobretudo quanto ao ingrediente essencial – o consenso existente em seu relacionamento. Eles afirmam categoricamente que não provocavam nem dor nem humilhação; o que fazem tem mais a ver com pureza, amor e autenticidade.
O psiquiatra inglês Peter Dally, acredita – apesar de essa idéia ser muito combatida no meio – que as tendências sadomasoquistas de cada pessoa se manifestam no estilo de vida por ela adotado. Dessa forma, juízes, psicanalistas, legistas e cirurgiões seriam mais propensos a serem sádicos.
Atualmente o masoquismo está incorporado à subcultura BDSM, como uma forma de expressão sócio-sexual coletiva ou individual. BDSM é um sinônimo p/ a expressão Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo. Bondage é um tipo específico de fetiche onde a principal fonte de prazer consiste em amarrar e imobilizar seu parceiro ou pessoa envolvida.
Segundo o site de BDSM, O Indominável, feito por uma dominadora sádica, “a disciplina é essencial para a o perfeito adestramento e o bom desenvolvimento de um escravo. Disciplina significa impor limites. São as delimitações as quais o escravo estará contido, tanto fisicamente quando psicologicamente, e claro que o tamanho e expansão desses limites estão sobre o total controle da dominadora”. Escravo é a maneira como o parceiro do dominador é conhecido. “Um escravo disciplinado possui uma vida regrada. Disciplina nada mais é do que o cumprimento de um conjunto de regras que são impostas pela Dominadora para o escravo. E essas regras devem ser cumpridas sempre”, continua ela.
Estas são algumas das práticas de dominação que ela impõe a seu escravo: agir como objeto, obrigar o escravo a engolir seu próprio esperma, sempre se dirigir a ela como “Senhora” ou “Madame”, torná-lo cinzeiro humano, privá-lo da visão, trancá-lo em jaulas e ignorá-lo, obrigar a andar de quatro, urinar em sua comida, usar coleira, entre outros.
O escravo deve assinar um contrato feito pelo dominador, onde oferece seu corpo para o “dono” usufruir livremente e se compromete a fazer sempre as vontades dele. Ao assinar o contrato, o escravo atesta que confia no dominador, que será sempre fiel a ele e que jamais contestará sua ordem.
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