
Se, mesmo depois de várias revoluções e revolucionários, o mundo mantém paradigmas ultrapassados, imagine como seria se tudo estivesse exatamente como era há séculos. Enquanto Alfonso Donatiano Francisco de Sade, lá por 1700 escrevia contos pecaminosos e escandalosos, era preso e sofria acusações terríveis. Uma imensidade de senhores poderosos praticavam suas perversões sexuais, tais quais eram descritas por Sade, sem serem julgados nem descobertos.
Marquês de Sade está, ao mesmo tempo, inserido como um dos maiores e mais difamados escritores de sua época. Existe sim a prioridade para o difamado. Pois são poucos os que compreendem sua obra e a levam a sério. O aristocrata francês respirava polêmica.
Questionador, passou a vida protestando a moral e os “bons costumes” franceses. A religião era sua maior opositora, e a mais questionada por suas ideologias libertárias e, de certa forma, futurísticas. Para desgosto maior da igreja, isso acontecia bem na época em que o clero perdia suas influências. A burguesia francesa ganhava forças, pensadores ateus como Rousseau e Voltaire começavam a surgir. Era a decadência em forma de cruz. Tanto os padres, como a própria igreja, já não serviam para muita coisa.
Começara a partir dali uma luta para se manter sociável, mesmo fora das grades da religião. Sade foi no caminho contrário. Se declarou livre de qualquer valor moral. Para ele, Deus e o Diabo eram indiferentes, não possuíam valores significativos. “O meu maior desgosto é que Deus, na realidade, não exista, privando-me assim do prazer de o insultar mais positivamente”, protestava ele.
Foi dessa idéia de “mundo sem valores” que Sade começou sua buscar pelo extremo prazer pessoal. A partir do momento em que expôs para a sociedade a premissa de que os prazeres sexuais mais intensos deveriam ser buscados sem nenhuma restrição ética ou moral, espalhou por todos os cantos da França uma profunda indignação e ódio. Seu tempo de libertinagem foi menor do que o de encarceramento. Foram 27 anos na prisão. Seus crimes, se fossem julgados hoje, superlotariam todas as prisões do mundo.
Amantes, orgias bissexuais, prostitutas, casos homossexuais e sodomia eram os prazeres de Sade. Seu pior crime foi causado pelo último item. Em 1768 foi acusado de por uma jovem de tê-la torturado enquanto proferia obscenidades. Surgia aí o que hoje chamamos de sadismo.
Sade foi considerado um pervertido sexual por cem anos. No século XIX se chegou a conclusão que ele havia percebido uma característica humana a muito tempo interiorizada, a busca do prazer com absoluta independência e exaltação das sensações por todos os meios e combinações possíveis. Alguns acreditam que ele tenha nascido fora de sua época. Um futurista. O percussor de idéias freudianas. Sade abriu as algemas dos desejos secretos, da intimidade absoluta, da solidão e do prazer.
“... nada nem ninguém é mais importante do que nós próprios. E não devemos negar-nos nenhum prazer, nenhuma experiência, nenhuma satisfação, desculpando-nos com a moral, a religião ou os costumes.”
Marquês de Sade
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