10.9.08

Tenho 22 anos e por aproximadamente um ano e meio estou vivendo feliz e casada com meu marido, também chamado por mim de ‘Escravo’. Minha personalidade pede por um escravo que me sirva 24 horas por dia. Assim como uma garota mimada, eu tenho a necessidade de humilhar os homens e de subjugá-los e sinto um prazer imenso com isso. Conheci meu marido enquanto estava em férias. Ele se apaixonou loucamente por mim e após alguns meses me propôs casamento. Então, eu pensei: ‘não tenho nada a perder se ele aceitar meus termos’. E meus termos são bem claros: obediência total, alto grau de humilhações e incondicional atendimento dos meus desejos e necessidades”.

Este texto anônimo publicado no site “O Indominável” dá uma amostra clara do que é sadismo sexual.

Os psiquiatras preferem separar o termo sadomasoquismo em duas partes: sadismo sexual e masoquismo sexual. O filósofo francês, Gilles Deleuze (1925-1995) defende com veemência, em sua obra Masochism: Coldness and Cruelty (1989), a idéia de que o sadismo e o masoquismo não formam uma entidade: “Cada qual não se constitui de impulsos parciais, mas é completo em si mesmo”.

No começo do século XX, antes que se adotasse sadismo como termo psiquiátrico oficial, o psicopatologista alemão, Albert Von Schrenck-Notzing (1862-1929) introduziu o termo algolagnia, que significa excitação com a dor. E, embora definisse o desejo de causar dor como um fim em si mesmo, o médico não fazia distinção entre sadismo e masoquismo.

Sadismo, no sentido mais especifico do termo, é a tendência de buscar prazer sexual na imposição de sofrimento a alguém. O termo foi proposto pelo sexólogo alemão Richard von Krafft Ebing (1840-1902) em fins do século passado e deriva do nome do “Marquês” de Sade (Donatien Alphonse-François, 1740-1814). Sade levou uma vida real que rivaliza com suas mais fantasiosas obras de ficção. Sua biografia abrange, de fato, numerosos episódios de comportamento sexual marcado por violência.

Para o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV), a bíblia dos termos psiquiátricos, da Associação Psquiátrica Americana: “As fantasias ou os atos sádicos podem envolver atividades que indicam o domínio do individuo sobre a vítima (por exemplo, forçar a vítima a rastejar ou mantê-la em uma jaula). Os indivíduos também podem atar, vedar, dar palmadas, espancar, chicotear, beliscar, bater, queimar, administrar choques elétricos, estuprar, cortar, esfaquear, estrangular, torturar, mutilar ou matar a vítima. É comum as fantasias sexuais sádicas terem existido na infância.”

Os atos sádicos contam sempre com a participação de outras pessoas, que podem ser parceiras consensuais ou vítimas voluntárias. Para entender o sadismo, é importante observar a diferença entre fantasias sádicas e atos sádicos. O que em geral constitui perversão são os atos, não as fantasias. Todos podem ter fantasias sexuais de qualquer natureza sem o “risco” de serem rotulados de perverso.

“A maioria dos psicólogos, psiquiatras e sexólogos acredita que o sadismo seja apenas manifestação extrema de impulsos de agressividade normalmente associados ao impulso sexual”, explica o sexólogo e autor do livro Vida Íntima, Aldo Pereira. A diferença entre um ato sádico, como chicotear alguém em um contexto sexual, e um ato “apaixonado”, como o de morder durante uma relação sexual, é puramente de grau, não de natureza. Distinguir sadismo da agressividade sexual, considerada normal, é um problema de definição de limites.

Mas por que o sofrimento da vítima dá prazer ao sádico? Às vezes a mera visão de sofrimento já é bastante para excitar o sádico a ponto de levá-lo ao orgasmo. Mas existem muitos casos em que o sofrimento de alguém provoca uma excitação inconsciente, que só vai satisfazer-se depois, com o coito.

Pesquisas apontam que a maioria dos sádicos são homens. Embora existam vários exemplos de mulheres sádicas, os homens praticantes são muito mais numerosos. “Muitas mulheres que praticam atos sádicos não o fazem por motivação própria, e sim como serviço, remunerado ou não, prestado a homens masoquistas”, explica Aldo.

No passado, esse prazer de ferir os outros, era disseminado e livre e até serviu para erigir impérios. Humilhar, mutilar e esquartejar os inimigos e estuprar suas mulheres era uma forma corriqueira e aceita de exibir a força. Hoje a civilização tenta conter a crueldade, limitando-a ao terreno da criminalidade.

Mas nem a lei foi capaz de contê-la. Afinal, o que leva alguém a infligir dor a suas vítimas? Por que na maioria dos casos, assassinos e outros tipos de criminosos são homens? A explicação está na genética.

A psiquiatra americana Helen Morrison coordenou por dez anos um estudo sobre o corpo e a mente dos serial killers e encontrou evidências de que, ainda no útero, eles teriam sofrido uma mutação no cromossomo Y. Essa mutação ficaria inoperante até a adolescência, quando estimulada pela ebulição hormonal, passaria a determinar um padrão de comportamento violento. O fato de a mutação ocorrer apenas no cromossomo Y, definidor da masculinidade, explica porque existem tão poucas mulheres sádicas sexuais ou serial killers.

“Para alguns, a prática de atos cruéis é a única forma de se impor como homem”, diz a antropóloga Alba Zaluar, do Núcleo de Pesquisa das Violências, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Isso vale também para as práticas sexuais sádicas, onde o dominador pode demonstrar sua frieza e exibir sua força para sentir-se realizado em sua virilidade e poder.

Muitos psicólogos supõem que tendências sádicas teriam origem no instinto da espécie humana. Alguns deles comparam a agressividade sexual do homem à dos machos de outras espécies. O coito é tipicamente violento para gatos, morcegos, leões, coelhos, carneiros e entre os mustelídeos (família de predadores que inclui a ariranha, a lontra, a marta e o arminho). O coito dos mustelídeos, por exemplo, começa com o bote do macho sobre a fêmea. Ele crava suas longas e pontiagudas presas no pescoço da fêmea. Ela tenta fugir numa reação vigorosa. A batalha é demorada e, à medida que vai subjugando a fêmea, o macho assume posição favorável para o coito.

Em alguns animais, a subjugação violenta da fêmea tem funções biológicas. Clellan Ford e Frank Beach, pesquisadores americanos que se dedicaram ao estudo dos mustelídeos, constataram que a violência sexual desses bichos não corresponde a um estupro. Se a fêmea não for receptiva, não haverá coito. O comportamento violento é parte essencial do processo reprodutivo desses animais porque os machos recusam fêmeas muito dóceis e que, portanto, deixam de oferecer a resistência normal. Quando o coito ocorre sem o conflito usual, raramente há concepção. Ocorre que a fêmea recebe estímulos durante a luta, que são necessários para a liberação de óvulos maduros. Assim, na ausência dessa estimulação, o coito é estéril.

Paul MacLean, pesquisador das funções psicossexuais do encéfalo, explica por que a agressão é sexualmente excitante para os homens. Segundo suas pesquisas, uma área próxima dos centros da ira tem íntima conexão nervosa com os sistemas de reprodução e de autopreservação. Para MacLean, essa relação neurológica explicaria o ciúme e outras associações entre agressividade e sexualidade.

Nada prova que o sadismo do homem tenha relação com instintos de agressão sexual de outros machos, mas é interessante notar que na Roma antiga havia bordéis vizinhos aos estádios onde eram promovidas as lutas entre gladiadores. Era depois do fim desses espetáculos que as prostitutas romanas eram mais solicitadas. Psicólogos acreditam que certas emoções podem intensificar a excitação sexual. No caso dos romanos, a emoção das lutas dos gladiadores despertava a libido.

Para Freud, os impulsos do sadismo apareceriam na criança como reação a frustrações emocionais, à carência afetiva ou à rejeição. Causar sofrimento seria uma espécie de vingança e um meio de forçar outros a reconhecerem a sua importância e poder.

Outra teoria afirma que o sádico seria uma pessoa insegura a respeito de sua potência sexual. Ela precisaria humilhar e subjugar outra pessoa para sentir que a domina, que ela não tem poder para rejeitá-la ou julgar seu desempenho.

Uma terceira teoria supõe que o sádico foi criado em um ambiente que reprimia o comportamento sexual. Afligido pelo conflito entre o desejo e a culpa, ele resolve o dilema por conjugação: ao mesmo tempo em que se dá o prazer proibido, ele pune a pessoa a quem inconscientemente condena como responsável pelo seu sofrimento e culpa.

A psicanálise é uma das terapias mais usadas para o tratamento de sadismo. Técnicas behavioristas de tratamento por aversão (punição do paciente toda vez que ele manifesta impulso sádico) são inaplicáveis hoje em dia, “em vista da complicada associação de sadismo com masoquismo”, explica Pereira, mas já foram postas em prática nas décadas de 60 e 70.

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